Que sonoramente canta

 

Lírica e devoção no primeiro barroco português

Da vasta quantidade de música composta em Portugal no século XVII, uma grande parte desapareceu quer por acção dos elementos (como o catastrófico terramoto de 1755), quer do próprio homem (por vandalismo, furto ou mera displicência) tendo sobrevivido, em muitos casos, apenas os textos ou os títulos das obras. O concerto que aqui propomos consiste em preciosíssimos exemplares da música que conseguiu resistir às agruras do tempo e chegar aos dias de hoje. Composta no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra na década que se seguiu à restauração da independência (entre 1640 e 1650, aproximadamente), a música revela um mundo onde as fronteiras que hoje separam o sacro do lírico eram muito mais ténues, se não mesmo inexistentes. O programa Que sonoramente canta ilustra isto mesmo, entrelaçando música devocional com cantos sobre textos da extraordinária produção poética do siglo de oro da poesia e teatro ibéricos.

Cada poema, seja ele sacro ou amoroso, recebe um magistral tratamento pela mão dos compositores de Santa Cruz de Coimbra, talhando engenhosamente uma música que serve na perfeição o fim a que se destina e os afectos que veicula.

Que sonoramente canta está concebido como duas narrativas paralelas onde desfilam de um lado o amor terreno com suas alegrias e vicissitudes, e, do outro, a procura de sentido através da transcendência e devoção espiritual.

No mesmo espaço físico e psicológico dança-se, canta-se a devoção, o amor, a independência, a brevidade da vida e a esperança, espelhando assim, através de uma vasta paleta de afectos e emoções, a nossa condição de seres terrenos questionadores e apaixonados.